quarta-feira, 13 de junho de 2012

J. Jota de Moraes

Foi com imenso pesar que recebi a notícia da morte de J. Jota de Moraes, aos 69 anos, em decorrência de problemas respiratórios.
Grande colaborador do Jornal da Tarde (de 1972 a 2003), foi, sem dúvida, o maior crítico musical do país. Reproduzo, abaixo, texto de sua autoria por ocasião do lançamento do CD Premières Sinfonia Cultura em 2001.


Em CD, os novos nomes da música erudita brasileira

O álbum Première traz a primeira gravação da orquestra Sinfonia Cultura e o registro de obras de quatro jovens compositores brasileiros

J. Jota de Moraes

Première é o título do CD do selo Paulus no qual há duas estréias: trata-se da primeira gravação da Sinfonia Cultura, sob regência de Lutero Rodrigues, e também do registro inaugural de obras de quatro jovens compositores brasileiros. Eles são: Luciano Guimarães, Edson Tobinaga, Marcus Siqueira e Vinícius Calvitti. Assim, este compact disc tem dupla importância.

O Brasil, infelizmente, é pobre em orquestra e paupérrimo em boas orquestras sinfônicas. Organismos de manutenção cara, elas não vêm recebendo do governo a atenção que merecem. Quase sempre, vivem em crise ou à míngua e seus músicos, em geral, acabam por realizar o seu trabalho por razões mais alimentares que propriamente artísticas. Todos acabam sofrendo com isso - os músicos, pela vida precária que freqüentemente levam, e os ouvintes, pela música de qualidade medíocre que são obrigados a ouvir.

A Sinfonia Cultura, orquestra da Rádio e TV Cultura de São Paulo, é mantida pela Fundação Padre Anchieta. Criada em 1998, ela vem realizando um trabalho respeitável, ainda que nem sempre de altíssimo nível artístico. Muito nova, espera-se que ela amadureça, sem entretanto cair no "funcionalismo" que contamina tantas outras orquestras brasileiras. Seu efetivo relativamente pequeno, de 55 músicos, exige ainda mais virtuosismo de seus integrantes e maior interação entre os vários naipes. E não é só porque, na atualidade, é a única a pertencer a uma emissora de rádio e televisão no Brasil que ela deva se acomodar - bem ao contrário.

Em parceria com a Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, a gravadora Paulus e a Ponteio Publishing, Inc., com sede em Nova York, a Sinfonia Cultura promoveu o Primeiro Concurso Nacional de Composição, realizado em 2000. O CD Première é dedicado às obras vencedoras.

Os quatro jovens compositores escolhidos se debatem com os problemas da crise geral da linguagem musical que o século 20 evidenciou. Diante de tantas e radicais obras-primas nascidas nesse período, eles se esforçam em se exprimir de maneira pessoal. Em 4 Estudos Sinfônicos, Luciano Guimarães tenta a aventura curiosa de aliar traços do minimalismo à música indígena e de inspiração folclórica. Edson Tobinaga, em Primavera Tripartida, busca na rarefação do pontilhismo sonoro estabelecer uma ponte entre Ocidente e Oriente. Já Marcus Siqueira, em Nove Cromos para Orquestra, risca no espaço-tempo uma série de arabescos bem cativantes, revisitando momentos da História da Música com imaginação. A Sinfonia, de Vinícius Calvitti, por sua volta, é mais convencional no seu apelo aos pólos tonais e à discursividade do material temático. Todos eles são talentosos e dão-nos a esperança de ainda vir a frutificar com maior originalidade.

Do ponto de vista técnico, a gravação coloca muito relevo na percussão e nos instrumentos de sopro. As cordas, em geral nem sempre proeminentes, soam um tanto opacas.


Jornal da Tarde, 5 de outubro de 2001.

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